Diário de um Palco da Praça em tempo de abandono

Anos de descaso, ameaçado diversas vezes de retirada e no momento de maior fragilidade da área em que está situado o Palco Central – a oportunidade perfeita para o seu desmonte

Imagem: Reprodução

No último final de semana de setembro, o desabamento de uma parte da Vila do Doce – a popularmente chamada vilinha, em Ribeirão Pires, trouxe à superfície um tema recorrente: o desmonte do Palco Central. Sem, antes, resolver questões básicas, como a situação dos comerciantes afetados pelo evento catastrófico, o restabelecimento da segurança e a preservação do corredor de água – prevaleceu logo a iniciativa por desmontar um equipamento cultural que sofre ao longo dos últimos anos com o descaso do poder público: falta de políticas de manutenção, nenhuma modernização e ausência de um calendário de atividades.

O modo como as imagens ganharam as redes no último dia 30, foi como se um símbolo da Cultura da Estância Turística, da comunidade artística e para o entretenimento público pudesse ser reduzido a um amontoado de peças, que tiradas uma a uma – começando pelo seu telhado, por funcionários do setor de zeladoria do município sem os devidos equipamentos de segurança – promoveria a solução imediata de um problema antigo. O palco não viu uma apresentação de laudo antes daquele evento, não ouviu uma boa troca de diálogo ou teve tempo para preparar sua próxima entrada; começou sua saída de cena – forçada –  não pelo acontecido, mas por acontecer de ser ou não ser um palco esquecido ali.

Ainda na mesma data, a vereadora Fernanda Henrique (PT) em companhia de trabalhadoras e trabalhadores da cultura uniram forças para atuar com medidas legais, inclusive no Ministério Público, objetivando a paralisação imediata da demolição do Palco Central. Durante a 26ª sessão ordinária da Câmara Municipal de Ribeirão Pires, realizada no dia 2 de outubro, um vereador do mesmo partido que o atual prefeito, o PL, fez a defesa de um novo projeto para a região, alegando questões de segurança pública, como o consumo de drogas por parte de usuários, o real motivo para o ataque ao espaço histórico/cultural em troca de um layout com quiosques, banheiros e playground.

Com tudo isso, o imediatismo chama atenção. Onde quase nada acontecia, segundo uma das vozes do governo municipal na Casa de Leis, da noite para o dia virou plataforma com mil e uma iniciativas. Empilham-se dúvidas: as novidades resolverão questões de segurança pública? Em qualquer bairro, a solução para uma ocorrência é demolir tudo que há no entorno ou investir em inteligência, ações conjuntas entre secretarias e manutenção permanente? Mas não, novamente descartando a participação popular ou sem parecer dar importância ao termo de cooperação assinado com a ACIARP – atual responsável pela Praça e Vila do Doce – afinal, o que a instituição projetava ou projetará para o futuro da área? Com quais objetivos? Qual o ganho para a população, o público e fazedores/fazedoras de arte, além da natureza que no local existe? Perguntas e mais perguntas… eis as questões.

No paralelo, algumas ações são realizadas em defesa pela revitalização e valorização da memória do Palco Central. No início deste mês, a posse do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC) foi marcada pela leitura de uma carta-manifesto. Também está aberto um abaixo-assinado contra a demolição e o desmonte do equipamento. A sociedade civil se organiza, defende seus direitos – à Cultura – e cobra os deveres de uma gestão que esquece ser a principal responsável por qualquer fator de acusação contra o espaço cultural e comunitário que deveria ser preservado.

Que Ribeirão Pires não promova com o Palco Central mais um ato sobre um espaço cultural esquecido levado ao esquecimento, como os teatros João Netto e Euclides Menato. Que a marca da cidade não seja por seus mega projetos de muito impacto e pouco resultado, situações do teleférico e o boulevard gastronômico, podendo aumentar essa lista com as situações atuais do Mirante e o viaduto estaiado. Política Cultural não é sobre propor a todo custo, fazer evento ou discursar amor, mas é ouvir. Atrativo turístico não se garante com devaneios, passa pela leitura do que já é potencial.

Que a tentativa de impor mais uma assinatura de governo não destrua a identidade presente. Que o Palco Central e o espaço que ele carrega de passado resista para o futuro com planejamento, escuta, critério e incentivo.

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