Ribeirão Pires: sai o palco da praça, tira o calçadão e o que sobra para o presente?
Intervenções ganham espaço, mas não dialogam com a população; parecem oferecer mais transtorno e promessas que qualidade de vida
Palco da Praça Central e Calçadão da Rua do Comércio, em Ribeirão Pires
Na última sessão da Câmara Municipal antes do aniversário de Ribeirão Pires, o presente que a população recebeu após anos de sucateamento do Palco Central e a sua demolição foi a concessão de uma parte da área para um parque de diversões particular. Naquela quinta-feira do dia 12 de março, foi apresentado em caráter de urgência pela gestão de Guto Volpi (PL) o projeto que autoriza a iniciativa privada explorar o espaço por dez anos.
Antes da votação, o líder de governo na Casa de Leis referiu-se ao terreno concedido como apenas um “pedacinho de um cantinho” da Praça – já o texto dá conta de um total de 372 m². Aparentemente, termos e proporções divergentes em suas definições. No resumo, a medida foi aprovada por maioria absoluta – mais uma vez sem qualquer tipo de consulta pública – por 16 x 1. A vereadora Fernanda Henrique (PT) foi a única que apresentou voto contrário a proposta. “A cidade precisa ser democrática. Praça pública precisa ser pública”, disse a parlamentar.
Na mesma sessão, outro tema voltou ao debate. A Tenda Multicultural, depois de ser impactada por fortes chuvas de meses atrás, segue com indefinição sobre seu futuro. O espaço que já sediou shows do Festival do Chocolate e atividades culturais parece mais um do segmento na fila do descaso – sem manutenção, planejamento e pespectiva de entrega relevante para a comunidade ribeirãopirense.
Parabéns!
Enquanto isso, o calendário de eventos 2026 da Estância foi inaugurado com a Entoada Nordestina – que, também, serviu como principal festividade pelos 72 anos de emancipação política de Ribeirão Pires – celebrado em 19 de março. Viva! Mas a sensação é de que as ações de governo, incluindo no setor cultural – vão preenchendo lacunas, sendo encaixadas com mais oportunismo imediato e improviso que projeção ou legado, um conjunto de pautas para repercussão positiva nos canais de comunicação, se oferecendo como imagem para turista (e o eleitorado) ver.
Exemplo disso, a Academia de Letras de Ribeirão Pires (ALERP) – passado algum tempo desde o seu anúncio – enfim, em março, foi tirada do papel, mas quais serão os outros recursos empenhados pela gestão municipal para o fortalecimento da própria instituição recém-criada, que afetem de verdade a feira literária do município – a FLIRP – e para que seus membros fundadores possam atuar com autonomia no fortalecimento da cena?
No dia a dia, nesse mexe daqui e de lá, com aparência de que tudo muda para sempre permanecer o mesmo, a população vê o que tá pronto entrar em obra (a próxima da vez é a intervenção no calçadão da Rua do Comércio) e o que tá em obra não ficar pronto (ou demorar muito pra evoluir). Placas de transparência – com informativos de prazo, valor investido e responsável pelos trabalhos parece não ser mais a regra. A Ribeirão Pires vendida como um prédio que está crescendo pra cima se mostra a cada dia melhor para ser vista (e vivida) para quem está lá do alto da sua janelinha.
Na contramão do investimento projetado pela prefeitura, que deseja substituir um calçadão central significado de acesso e convivência por mais limitação e trânsito, se apresenta a sociedade civil organizada que realizou um plebiscito popular com mais de 7 mil votos contrários a destruição do lugar. Antes disso, viu-se na área desrespeito com comerciantes, na poda das árvores e – o mais grave – no ato de violência política de gênero protagonizado pelo secretário de Meio Ambiente em direção a vereadora Fernanda Henrique (PT), que fiscalizava o início indevido das obras. Triste o tempo em que Ribeirão Pires vive dias de descaracterização de qualquer conceito de progresso.
Cada ano que passa…
Da série “vem aí”, qualquer novo programa regional de Cultura ou grande anúncio de revitalização que se apresente nas redes sociais sem o povo do fazer na discussão e entre gestores é, no mínimo, considerando a realidade de Ribeirão Pires, não levar em conta o déficit de espaços culturais equipados, continuar tratando a curadoria artística dos eventos sem abertura ao ponto de que a comunidade local – trabalhadores e trabalhadoras das artes – possa acessar os editais, ter conhecimento dos critérios de seleção para cada festividade e enviar suas propostas de apresentações e, por fim e muito importante, não considerar a formação de público como pilar protagonista. Do mais, o vídeo e as linhas do papel aceitam muita coisa, mas são poucos os efeitos e registros práticos de políticas permanentes para o futuro da vida cultural na Estância.
