START #6 | BBB 26 virou história
Show, realidade e a vida atravessando o programa televisivo
O BBB 26 terminou, repercute uma semana depois e ainda deve pautar muita coisa para os próximos reality shows. Os 100 dias do programa global até a definição do pódio fez desta temporada uma edição de colecionador – segundo comentaristas. Nem todo ano é assim. O fenômeno televisivo que acabou na última terça-feira (21) reuniu um elenco de veteranos, camarotes e pipocas que não descansou. A emissora-mãe da obra vendeu, vendeu e vendeu cotas de patrocínio (precisava ter bet?). O resultado disso tudo foi assunto constante para o público do sofá, nas redes e até fora da bolha.
Produto do seu tempo, o show de realidade ocupou seu lugar na televisão brasileira logo após a virada do século e permaneceu, seguiu tendências, reproduziu – também em 2026 – o melhor e o pior da vida pública no privado de uma mansão cenográfica. Os toques da edição, reunidos tradicionalmente no final da noite, foram conquistando outras formas e aumentando seu espaço em mais de duas décadas: do ao vivo para o pacote 24 horas até chegar nos atuais cortes e reacts – visualizados a qualquer hora do dia.
O próprio sistema para fazer o público parte das principais decisões precisou se atualizar, trocou o 0800 no teclado telefônico por um clique, depois definiu o voto único como forma de não limitar o peso das interações apenas aos mutirões e, principalmente, inibir o trabalho de robôs. Certo, a mecânica para o BBB funcionar foi se adequando sem perder de vista a promessa de entregar o mais próximo da realidade para a audiência. Tanto foi feito para não pairar – ou diminuir a margem de – dúvidas no elemento espectador sobre seu real poder de decisão nas eliminações dos participantes.
Esse mesmo tempo que provocou tantas adequações para a sobrevivência do produto na programação assistiu a chegada do streaming, smartphone, influenciadores, outras vozes que diversificaram o interesse pelo entretenimento. Estreias são acumuladas diariamente. A atenção foi espalhada. A mensuração já não é tão exata considerando apenas o ibope. Assumindo seu posto na concorrência – e peço licença para deixar de lado por um momento as críticas e questionamentos pertinentes sobre a grade oferecida pelos canais hegemônicos, o propósito dos enlatados importados na tv e o vale-tudo por um prêmio – o BBB 26 seguia o rumo da história apenas por ele ter existido como foi.
Quem voltou para uma nova participação repetiu ao quadrado o equívoco, com uma exceção: “olha ela!”. Tretas épicas e jogadoras da melhor qualidade, reagindo a todo tipo de brecha do adversário da forma mais genuína e criativa, características que se qualificaram para a campeã e vice, Ana Paula e Tia Milena, respectivamente. Que dupla! Antes da confirmação definitiva das colocações, a realidade entrou com força no show. Precisamente na edição televisionada do domingo, 19 de abril, dois dias depois da despedida da lenda do basquete brasileiro, Oscar Schmidt, irmão do apresentador do reality Tadeu Schmidt.
No ao vivo, os jargões tão populares “tá gravado” e “o Brasil tá vendo” foram elevados a um lugar desconhecido, inédito, inexplicável, um agora e real Show de Truman acontecia. Na sala de casa – aqui fora – era difícil saber o que fazer. A jogadora que seria consagrada com o título, depois de uma trajetória de desafios e de ser desafiada 10 anos após sua expulsão do mesmo programa, lidava com a notícia do falecimento de seu pai ao mesmo tempo que seguia na reta final do game. O risco estava sem controle.
A solidariedade pareceu vencer qualquer julgamento. E não deveria ser diferente. Sem conhecimento sobre decisões comerciais e vivências familiares, opinião é somente opinião. O escrito aqui – neste texto – é sobre o coração e uma memória coletiva que ficou na sala, sofá, em família – em tempos de tantos canais, assuntos e informações, a televisão aberta (ou Globoplay, ou trecho compartilhado) foi o centro, rompeu barreiras e alcançou com o inesperado muita gente, com a sensibilidade que pareceu ser apropriada para o momento, de um jeito que não teve jeito de preparar ou produzir além do que foi feito, apenas a vida atravessando todo mundo (que assistiu).
O Show de Truman: O Show da Vida
Lançado em 1998, O Show de Truman: O Show da Vida entregou Jim Carrey (O Máskara – 1994; Debi e Lóide: Dois Idiotas em Apuro – 1994; Ace Ventura: Um Detetive Diferente – 1994) como protagonista, menos cômico e mais dramático. O filme de Peter Weir (Sociedade dos Poetas Mortos – 1989) constrói a vida de um homem aos olhos do público, em um cenário-cidade totalmente controlado. O ir e vir, o lazer e as relações, tudo vigiado pelo interesse de quem consome e patrocina. Um marco cinematográfico que não envelhece, aparentemente invertendo o conceito em que a ficção imita a realidade. O BBB vindo na sequência, uma dúvida ganha o paredão: a realidade imitou a ficção?
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