START #7 | Michael é pop em muitos sentidos
Filme leva público para o cinema, faz a música ser (mais) ouvida e celebra a carreira do astro
O artista Michael Jackson através dos filmes (Imagens: Reprodução/Divulgação)
A cinebiografia, esperada por uma parcela como sinônimo de luz sobre polêmica, ganhou os cinemas em formato de tributo. Michael chegou distanciado de qualquer tema que não fosse o da trajetória icônica, a indicação está logo na cena que abre o filme dirigido por Antoine Fuqua – a estrela máxima do Pop está prestes a assumir o palco em um momento decisivo da carreira. Se nos bastidores a imagem valoriza o aquecimento carregado de anos, perante os holofotes e lentes é ali o lugar em que a sombra do menino reflete tamanho proporcional ao êxtase gerado no público.
Insatisfação para alguns, surpresa para outros. O corte final não seria com outro roteiro, nem pela posição influente e interessada de partes envolvidas, nem pelo fato de que o projeto se define pelo que ele é, não pelo que era especulado ou o que poderia ser. Em Michael, o embate com o pai é o eixo determinante de cada fase do artista. Suas escolhas, renúncias e riscos. Colman Domingo (Euphoria) no papel de Joe Jackson atua no contraponto da leveza do protagonista – que desliza em seus momentos dançando, se alimentando de referências ao ver tv ou brincando no seu universo particular.
Jaafar Jackson, sobrinho de MJ, personifica o tio no filme-show. O ator estreia no cinema, sua primeira aparição na história continua a potente desenvoltura de Juliano Valdi, a criança com a responsabilidade de fazer The Jackson 5 ser visto e ouvido pela indústria. A memória de outro tempo – minha lembrança de pequeno vendo a série Os Jacksons: Um Sonho Americano – bate ao som dos hits do grupo de irmãos, agora refazendo na tela grande a trajetória de ascensão dos garotos, atravessada pelos excessos do patriarca. Na transição dos atores – o menino para o jovem – o ritmo assenta e uma nova fase do artista ganha roteiro. Contratos, criatividade e carência. Um novo ato.
Don´t Stop Til You Get Enough
Sem propósito documental e profundidade, situações delicadas como as de saúde aparecem nos detalhes em paralelo aos passos do jovem astro que busca a liberdade e o ápice. “Não pare até conseguir o suficiente.” O Pop que tocava os ouvidos da multidão eleva o nível de produção e sentidos com a visão do amanhã pelos filmes curta-metragens. Tato. A treta com a MTV para exibição fica concentrada em uma cena curta. Preciosidades, os clipes estão à frente do seu tempo, marcam época e seguem vivos – convite à maratona com gosto e pipoca depois de Michael no cinema.
Fenômeno e nada isolado. O filme arrecadou quase US$ 220 milhões de bilheteria mundial no primeiro final de semana. No Brasil, mais de um milhão de pessoas foram aos cinemas entre os dias 23 e 26 de abril. Até aqui cifras, plays e views seguem em ascensão. Nas plataformas de streaming, a oferta tomou seu lugar de destaque. Após Michael, produções com Michael Jackson no centro – no conforto do lar e conectadas com o respectivo período de feitura – são como peças para preencher lacunas no imaginário, ver mais registros do ídolo e não deixar baixar a poeira do atemporal thriller da vida real.
Michael Jackson – Moonwalker
“Faça a diferença”, a mensagem que se destaca na primeira sequência de Michael Jackson – Moonwalker (1988). O filme durante os minutos iniciais intercala momentos históricos – arte e política. A emoção dos shows, as tensões mundiais e fãs desmaiando – como um recorte real do que é reproduzido em Michael (2026). A sobreposição de muita coisa – carreira, cenas animadas, nave e até robô gigante – tem no roteiro um MJ crítico ao que lhe incomoda, como a insistência dos repórteres, e outro ficcional quase com superpoderes.
O vilão principal faz a ponte de hoje com um clássico de ontem, o ator Joe Pesci faria anos depois os filmes Esqueceram de Mim. É nesse segmento, mais sombrio e gângster, o centro de uma nova perseguição, o grande momento de Moonwalker, daquele que funciona independente de toda a trama – que no conjunto da obra parece assumir um tom bem experimental. O roteiro chega até o famoso clipe de Smooth Criminal. Não há exercício para forçar sentido nos acontecimentos. O clipe é cinema.
A sonoridade intensa e a movimentação genial da obra audiovisual – vinda de um antes e levada para um depois – é a parte mais concreta do longa. O elemento de suspense do roteiro é alcançado com o clássico do astro pela sobrevivência. “Annie, are you ok?” Forte. Nos créditos, mais força com um número musical pelo grupo sul-africano Ladysmith Black Mambazo – feito nos bastidores de Moonwalker. Ancestralidade. Pra ver, rever e sentir – se não tudo, esses momentos que fazem a diferença.
Michael Jackson’s – This Is It
A musculatura dez anos longe dos palcos. Viva. Os pés no compasso. Dança. O longa documental dá o play no setlist da última turnê antes de fechar a cortina, como define Michael Jackson em uma das cenas. O evento não aconteceu, a luz apagou poucos dias antes do tão preparado reencontro com o público em Londres. Kenny Ortega, diretor de Abracadabra (1993) e High School Musical (2006) – com o Pop muito bem registrado no currículo, é o realizador de Michael Jackson’s – This Is It (2009). É quem dirigiu ao lado de MJ o espetáculo.
No filme, fica com ele a responsabilidade de organizar a reunião de momentos que vão do processo de seleção do ballet as recriações dos clipes para projeção nos shows. As etapas técnicas e práticas são acompanhadas de perto pelo ícone. No meio de cada sequência, os hits fazem o documentário-musical. A relação entre artistas, reunidos, experimentando ideias – para um produto consolidado na história da música – é único. Arranjos, coreografias, não é repetição, mas um fazer-versão de si mesmo para o todo que é proposto no presente pelo corpo-cabeça-artista.
Sensibilidade. Para captar a deixa e no compartilhamento do palco com a equipe. Michael Jackson define os detalhes melódicos, ouve as sugestões de movimentação e fica tentado para ir mais alto – na plataforma. Um gesto e um símbolo. Poupando a voz em determinado momento – guarda o máximo da performance vocal para o dia da mensagem principal ganhar (curar) o mundo – não há como dizer que o show não aconteceu. A plateia formada abaixo do palco, por todas e todos que não estavam em cena, fez o papel da parte tão importante que não poderia faltar em um número do astro: as pessoas.
START é o espaço dedicado no Território Livre Fm para a Cultura Pop e suas expressões, links e tudo aquilo que fizer sentido depois do ato de dar o START – novo texto toda semana
