START #10 | Presente que veio do passado, brinquedo no cinema e o passeio pela mídia física
Mestres do Universo chegou aos cinemas em 2026 com gostinho de outra época; sem atraso, a brincadeira na Cultura Pop é não ser vencido pelo tempo
Filme para vender boneco. Brinquedo que serve de roteiro para o cinema. Dois lados de uma brincadeira da Mattel além dos seus produtos nas lojas, figurando oportunamente seu portfólio em uma divisão cinematográfica. Em 2023, Greta Gerwig (Lady Bird: A Hora de Voar; Adoráveis Mulheres) apresentou sua visão para o live-action de Barbie, protagonizado por Margot Robbie. Uma produção com mensagem, cheia de cor e para todas as idades. Retorno financeiro, oito indicações ao Oscar e a estatueta na categoria de Melhor Canção Original. Sucesso fora da caixa, a história da boneca – que questiona os modelos, padrões e a posição dos engravatados no mercado de entretenimento – abriu caminhos.
Mestres do Universo (2026) tem a força. O filme de Travis Knight (Bumblebee) é divertido, funcionou como uma sessão no meio da tarde de um feriado. Vi no dia 4 de junho. Sala cheia em Mauá. A produção chegou aos cinemas em uma semana propícia para o tipo de programa, porém, dividiu a atenção com Todo Mundo em Pânico 6. Abaixo do esperado, a semana de abertura ficou na casa dos US$ 50 milhões na bilheteria mundial; o Brasil fortaleceu na conta com mais de 1 milhão de pessoas – que reviveram a época do desenho animado, pagaram para ver a releitura e/ou apresentaram o planeta Eternia para jovens.
“Vilões fazem monólogo. Heróis vencem no diálogo”, a síntese de Mestres do Universo – mensagem fiel a animação e com liberdade para servir a criação atual. A jornada de descoberta do herói – He-Man – passa pelas suas próprias crises, desafios e enfrentamentos. Adam (Nicholas Galitzine) tem questões internas e externas para resolver nos dois planos – no exílio e na terra natal. Os problemas não somem com o desenvolvimento do roteiro. Não há medo de parecer cafona, há coragem em tentar preencher as lacunas entre tiros, porradaria e bomba. Teela (Camila Mendes) tem sua construção para além de filha do Mentor, interpretado por Idris Elba. Ela quer manter a escrita de resistência da família. O pai aceita o fracasso para não correr o risco de um novo insucesso.
Outra boa desenvoltura, talvez a mais surpreendente, Jared Leto faz um Esqueleto com alma – o inimigo sabe que lhe falta propósito, mas tem de sobra o desejo pelo poder e a destruição. Mescla violência e ironia. Funciona bem. Como toda boa jogada, são várias as possibilidades abertas de futuro para uma sequência ou expansão dos Mestres do Universo. As cenas extras não mentem. Entre o sim, o talvez e o para nunca mais, o tabuleiro deverá considerar os movimentos em produtos licenciados e consumo no streaming. Na dependência do sucesso, somando todos os lados da brincadeira, está nas mãos dos executivos a verdadeira força de decisão.
Para assistir (brincar) sem sair de casa
Desde o último dia 22, o live-action de He-Man está disponível no Prime Video. Mestres do Universo pulou a etapa do aluguel digital e foi direto dos cinemas para o catálogo da plataforma da Amazon. Para ver do lar, ao alcance de um botão. Com a estratégia de buscar um público interessado, mas que não comprou a proposta de assistir na tela grande, a produção logo assumiu a posição de mais vista dentro do serviço no Brasil e global.
Sem pisar o pé no freio, o horizonte aponta para mais Mattel com pipoca. Dentro da programação da San Diego Comic-Con, realizada entre os dias 23 e 26 de julho, Matchbox – O Filme apresentou seu trailer com alta velocidade, explosões, John Cena (O Esquadrão Suicida; Chefes de Estado) como protagonista e a amizade como combustível. Tomando forma e roteiro a partir dos populares carrinhos da empresa de brinquedos, o longa estreia na Apple TV+ no dia 9 de outubro.
Presença, passeio e passado
Para curtir fora da dependência do aluguel e assinatura. Pela linha do trem e do tempo, no dia 14 de junho, a Escola Livre de Cinema e Vídeo, em Santo André (região ABCDMRR), fez a fita sediando a 1ª edição da Feira Retroteca. Um encontro para exposição, busca e experimentação pelos formatos da mídia física. CD, DVD, Vinil e Blu-ray para troca. Um videogame Atari colocado para jogo. Venda de acessórios e equipamentos. Registros em foto – trabalhados e ambientados – analogicamente.
Sentidos trocados em conversas, horas de reencontros e por universos particulares de colecionadores, profissionais e entusiastas pela mesma sintonia. Na ponta da agulha, um evento em que o bônus foi sair com novos itens sem precisar abrir a carteira. Levar para casa algo memorável com valor maior que o preço de tabela. Ser peça do conceito circular. Sem prazo de validade. Com vida enquanto tiver cuidado.

A Retroteca foi um dia de passeio pela metáfora e significado da existência. Das coisas. E da própria. Particular, familiar ou em comunidade, rever muito do que se tinha aos montes nas casas ao estado atual de raridade. Do espaço que sobrava ao que se restou de memória e armazenamento. Para o disco seguir girando, rebobinar. Se para a indústria deixou de ser interessante, a pessoa mantém o interesse e interessados se encontram fisicamente com a mídia física. Sem perder – para o – tempo.
START é o espaço dedicado no Território Livre Fm para a Cultura Pop e suas expressões, fases, links e tudo aquilo que fizer sentido depois do ato de dar o START – novo texto toda semana!
