Fórum de Cultura do ABCDMRR realiza encontro com fazedores da região
Evento aconteceu no último sábado (30) no Consórcio Intermunicipal Grande ABC com mesas de conversa sobre o MinC e suas dimensões, territórios da região e o Direito Cultural
A B C D M R R
Repete comigo:
A B C D M R R
O ABC Paulista não representa a diversidade que essa região tem. Somos cidades-irmãs, mas não gêmeas. Somos diferentes econômica e socialmente, e isso precisa ser respeitado.
A: a cidade mais velha.
B: a cidade mais populosa.
C: o maior PIB da região.
Elas têm uma construção diferente do D, que já foi considerada a cidade mais violenta da região e hoje é referência para a cultura hip hop, movimento de resistência social e artisticamente ligado às ditas marginalidades.
M tem a maior proporção de população vivendo em comunidades, com 27,6% dos seus habitantes nas quebradas.
R: metida demais para admitir que tem favela e pobre demais para ser rica, segundo as vizinhas — uma estância turística que está vendo sua paisagem mudar com tantos novos prédios, carros e infraestrutura insuficiente.
O segundo R, final da linha do trem, tem o menor município da região, com a menor receita e menos empregos formais.
São muitas diferenças, mas há uma coisa que une essas cidades: o setor cultural! As sete cidades têm produção cultural e artística diversa, com grandes potencialidades. Um setor em desenvolvimento que pode ser um bom investimento para manter a região como referência.
Mas até aí, nesse setor, há diferenças enormes: maiores que a extensão de São Bernardo e chegando muito perto da esnobeza de São Caetano. O setor cultural dessas cidades caminha com pés diferentes… e muitas vezes nem chega a caminhar junto. Enquanto algumas têm secretarias estruturadas, editais regulares e equipamentos culturais ativos, outras ainda contam com políticas frágeis, conselhos desmobilizados e recursos quase inexistentes. Isso cria uma desigualdade enorme para quem vive da cultura: artistas, produtores e coletivos que, dependendo do CEP, têm acesso ou não a oportunidades, espaços e reconhecimento.
E é aí que a integração regional poderia fazer diferença. Porque, apesar das diferenças econômicas, sociais e políticas, a cultura sempre atravessou fronteiras: o samba do R vai para o B, o teatro do A se apresenta no C, o rap do D ecoa no M e no segundo R, e os artistas transitam como se a linha do trem fosse um corredor cultural natural. Mas, para transformar esse trânsito em política pública real, é preciso vontade política, diálogo e mecanismos regionais que respeitem as particularidades sem perder de vista o coletivo.
No último sábado, 30, aconteceu o Encontro do Fórum de Cultura do ABCDMRR, mais um dos muitos encontros que os trabalhadores culturais vêm propondo para avaliar diferenças, alinhar semelhanças e, assim, superar a ideia de que toda a cultura é igual, quando na verdade cada canto pede estrutura e política pública específicas.
O Consórcio do Grande ABC foi o palco: mesa com artistas e produtores culturais, plateia temperada pelas sete cidades e o MinC compartilhando suas ações e desejos para a região.
Eu, Dani Silveira, fiz parte da primeira mesa, ao lado de Alessandro Azevedo e Celice Oliveira, representantes de programas criados para descentralizar a escuta do Ministério da Cultura. Minha missão: falar sobre meu componente favorito do Sistema Municipal de Cultura, o CMPC — ferramenta para o controle social das ações culturais, consultivo, ponte entre poder público e sociedade civil, espaço de formação cidadã.

Na segunda mesa, os fazedores de cultura: Beto Teoria (RP) compartilhou sua experiência com o hip hop e a gestão pública; Joul Matéria Rima, de Diadema, trouxe histórias e reflexões, rimas e realidades das quebradas do Fundão do ABC (MRR); e Rita Dionísio (SBC), do Bloco Mulheres do ABC, trouxe a perspectiva de gênero para os desafios enfrentados pela produção cultural e o machismo dentro do setor, para contratações e ativações dos coletivos femininos.

Veio o intervalo — hora de alimentar barriga e mente. Entre salgadinhos, conversas, concordâncias e discordâncias, o papo foi nutritivo.
Voltamos para a terceira mesa: Direito Cultural, com falas de Richard Farias (RP) e Bruna Lemos (RP), dois advogados jovens que encontraram no setor cultural um ambiente propício para a justiça olhar com mais atenção — porque a balança é desigual e tem muita gente desleal. Eles falaram sobre artigos, contratos e, claro, as tretas que artistas enfrentam para se manter e não caírem nas armadilhas do setor. E acreditem: não é à toa que muitas universidades de Direito têm aulas de teatro. A arte traz argumentação, precisão e distanciamento — ferramentas essenciais para qualquer bom advogado. A troca de ideias girou em torno das perguntas: “O que tem a ver o direito com os artistas?” e “O que o artista tem por direito?”.

O encontro foi organizado pelos Agentes Territoriais de Cultura: Letícia Destro (RP), Nicolas Mc (Diadema) e Deusa Negra (Mauá). Pelos relatos, eles precisaram fazer quase um chá-revelação para o Programa Nacional dos Comitês de Cultura de São Paulo: a região metropolitana tem uma micro-região que não é pouca coisa, não. O ABC Paulista tem mais letras nesse rolê, e as palavras do Fundão precisam ser desenvolvidas e ouvidas.
Entre uma palavra trocada e outra, o Fluxo Ubuntu (foto abaixo) trouxe a poesia que rasga a realidade e transborda verdades. Teve momento de ginga, história da capoeira, dança, berimbau e a força do tambor da Casa de Capoeira Angola no Fio da Navalha — bonito de ver, ouvir e se reconhecer na pele de cada artista que ali partilhou seu ganha-pão.

Na abertura, falas das autoridades: Aroaldo, presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Consórcio, e a vereadora do ABCDMRR, Fernanda Henrique (PT), que usou sua posição para mandar um recado direto para o MinC, para o consórcio e para os gestores da região: é importante debater a cultura, mas a região precisa de diagnóstico, dados e mapeamento para construir políticas públicas coerentes e constantes. A fala começou com a figura da vereadora, mas no final a atriz se mostrou militante e, com propriedade, firmou compromissos com os presentes.
Pelo trilho do trem ou pelas trilhas da região, a cultura se move e constrói pontos de produção, informação e comunicação. O ABCDMRR é plural, dinâmico e muito mais do que letras sem poesia: é repente, rap, artes cênicas, cultura popular, é interior e setor industrial, cidade grande e espaço de tranquilidade. É feito de vagões firmes que seguem para frente, levando cultura, arte e resistência para todas as paradas da região.
E fica aqui, nessa resenha feita de Ribeirão Pires, a certeza de que não dá para minimizar as diferenças entre as cidades. É fundamental que cada uma seja estimulada a fomentar a cultura local e direcionar orçamento para o setor cultural, reconhecendo seu desenvolvimento econômico e seus trabalhadores.
Mais uma vez, a questão é múltipla: é preciso somar sem subtrair as potencialidades e dividir para que as últimas letras também tenham cultura, fomento e políticas públicas de qualidade, assim como as iniciais.
Agora, repete comigo: ABCDMRR!
Ah (!) e eu acho que os gestores públicos da região se perderam no caminho ao invés de entrar nesse trem cultural, foram convidados e nenhum apareceu…
Agradecimento: Nina e o perfil @asvezestirofoto pelos registros que ilustraram nossa resenha
