Som Da Casa | Hip Hop Rua: ‘A maior malandragem do mundo é viver’
O Anfiteatro Arquimedes Ribeiro foi palco para grandes personalidades do rap paulista, nacional e, pra nóis que acredita que o Hip Hop não respeita fronteiras, representantes da rima e da realidade do mundo
Rzo A Banca durante o evento Hip Hop Rua, em Ribeirão Pires (Foto: Dani Silveira)
Ribeirão Pires é uma cidade de médio porte, coronelista, construída por pequenos sobrenomes com grandes poderes. Uma cidade que já teve o rap proibido pelo prefeito, que tem suas batalhas de rima boicotadas e que um dia pode estar no mapa das Casas do Hip Hop, que hoje não existe mais e, quando é sondada para um possível retorno, está deslocada do seu conceito e minimizada por interesses que normalmente o Hip Hop abomina.
Ter a plateia lotada por manos, minas e monas que, na rua, são hostilizados por sua roupa, por sua postura, pela sua cultura e por sua cor é um levante para essa arte de cadência rápida e pensamento crítico. Ali, as maiores autoridades são representantes das quebradas de Ribeirão Pires, que trazem na voz o instinto da rua, que saem da Vila Mara para ocupar seu espaço no mundo, na diversidade do rap pesadão ao rap melódico, que não minimiza a realidade e tem como tarefa levar a palavra para fora da teoria, indo para a prática do seu discurso.
Grandes monstros do rap, que não têm medo do palavrão, da violência retratada, são grandes vozes críticas, roucas, afinadas e sempre afiadas. No palco, eles nos fazem lembrar por que o rap é rechaçado pelos poderosos: eles o temem. Fazem a gente lembrar que o Hip Hop nunca foi moda; ele não combina com qualquer um. Seu estilo é de roupa, rima e verdade.
Os de lá veem o rap e seus exemplares e dizem: são mal-encarados, mal vestidos, mal educados, mal preparados… E nós respondemos aos olhares e preconceitos fechando em palavras: preferimos ser do mal quando o bem está vestido de pele de cordeiro. Nossos princípios têm o rótulo de mal, mas nunca fomos mal-intencionados, de mau caráter ou mal organizados. Prefira ser verdadeiro a ser bem-vindo em currais estilosos, descolados e prontos para engolir seus irmãos.
É preciso compartilhar que esse palco também é usado para iludir. As caixas que ontem amplificaram as rimas são as mesmas que são usadas para boicotar a cultura local. Os microfones e as luzes também serviram àqueles que acham que cultura é moeda de troca e se vestem, por fora, de amigos da juventude, mas se nutrem da violência velada. Alimentam-se da derrota dos que tentam sobreviver de arte e cultura. Eles riem quando os de nós discutem, usam o telão para projetar ilusões e boas intenções que, quando concretizadas, proíbem a entrada dos jovens, da diversidade, do rap e das vozes que ali deveriam ser respeitadas.
O Hip Hop não é camiseta que se veste para uma foto. Não é grafite que esconde as manchas da história. As palavras rimadas não podem ser finalizadas ao comando do chefe. Se a sinceridade é ofensiva, é porque a intenção nunca foi honesta.
A força das apresentações, da dança que representa a formação, da experiência daqueles que nunca saíram dos nossos ouvidos e dos locais que resistem e lutam para que o Hip Hop continue sendo manifestação na Pérola da Serra, nas ruas do ABCDMRR, nos discursos e no enfrentamento; são escudo da bala política que, perdida, costuma atingir os trabalhadores da cultura, que, marginalizados, são subestimados.
Hip Hop Rua, em sua edição Gold, veio para lembrar que nem tudo que reluz é ouro e que precisamos estar atentos a quem está realmente do nosso lado, cantando a mesma canção e disposto a respeitar nossos passos.
Eu sou do rap!
Nós somos do rap!
E, mesmo conservadora, Ribeirão Pires é do rap!

Retrato mais do que verdadeiro sobre o panorama da cidade atualmente. Evento poderoso, texto afiado. Parabéns, Território!
Um texto NECESSÁRIO que todos deveriam ler. E entender quem são os verdadeiros lobos dessa história.