Ribeirão Pires | Vende-se grandes projetos, mas qual o tamanho das realizações?

Entre uma inauguração aqui e a novidade lá na programação do Festival do Chocolate, a prática parece seguir o mesmo velho modelo de sempre – valorizar mais a gestão que o próprio benefício da entrega

A derrubada do verde em Ribeirão Pires – do centro aos bairros – virou pauta na mídia tradicional e investigação no Ministério Público. Enquanto isso, planta-se com insistência a notícia de qualidade de vida e até preservação ambiental na cidade, como quando houve o anúncio da parceria entre prefeitura e Enel para o plantio de espécies nativas no lugar de árvores que ofereçam risco à população e rede elétrica. A medida é justa, complexa é a desmedida. Só um exemplo do que virou comum na Estância Turística. E poderia ser outro tema, como a entrega de rádios para a Guarda Civil Municipal em meio à crise sem tamanho na instituição de segurança da Pérola da Serra. O discurso tem o tom de “os seus problemas acabaram”, na prática nada muda a nota. É o típico anúncio que ganha tamanho maior que o contexto – nos adjetivos ou numericamente.

Seja no tanto de metros cobertos de asfalto, a ênfase no visual incrível – que sempre esteve lá – do Mirante Santo Antônio, o número de 650 artistas da cidade – sem distinguir contratações via credenciameto municipal, convites e participação de alunos/alunas – para o Festival do Chocolate 2026 e por aí vai… Na tentativa de fazer a cidade funcionar plenamente com o acúmulo de postagens e noticiário, grande são os problemas das pequenas coisas no dia a dia: um telefone do posto de saúde que não atende, o ônibus que não passa, o edital de cultura que não é publicado…

Encorpando o cardápio das contradições, a cidade sediou em agosto uma nova edição do Festival do Chocolate – com direito a naming rights. A gestão municipal declarou o evento como gastronômico e não cultural. Mais um sabor à la contraditório. Parece que o figurino da cultura é vestido quando convém. O programa ABC + Cultura fez sua estreia na grade da festividade. Chegou acompanhado do ABC das Artes, prometido pelo Consórcio Intermunicipal como o primeiro Festival Regional das Culturas do Grande ABC, previsto para setembro em RP.

De criativa a genial, como são tratadas as duas propostas quando creditadas ao prefeito de Ribeirão Pires por membros da sua equipe, o fato é que ambas não carregam 100% desse cacau. Toda roda de conversa dos últimos anos entre trabalhadores e trabalhadoras da cultura o assunto muitas vezes foi roteiro, como um circuito de trocas, fortalecimento, profissionalização do setor, mapeamento de atividades e equipamentos, etc. Para além do exercício ou propaganda política, como uma plataforma permanente e com desafios, afinal, não se desloca ou produz pelas 7 cidades apenas com a moeda da visibilidade no bolso. Vale ressaltar que se algum projeto antes nunca foi levado adiante muito se deu pela falta de interesse e escuta das gestões municipais.

Nas últimas semanas – em post nas redes sociais – foi divulgado o encontro de uma comissão da instituição regional com a Ministra Margareth Menezes (a legenda credita apenas como Ministério da Cultura). Na mesa, a “defesa” de uma agenda cultural da região. Sem muito mais, a comunidade organizada e do fazer não aparece na foto. Então, se na conversa prevaleceu o ato de defender, fica a sensação que faltou atacar uma proposta prévia de diálogo pleno. Plural. Pelo ABCDMRR. Uma convocatória ampla. Um meio de campo. Chame como quiser. Qualquer futebol-arte que se respeite o jogo não se faz somente com os dirigentes e a bola. Sem participação na construção e planejamento, ficará para a/o artista o lugar de coadjuvante na sua própria obra?

O Território Livre Fm, no exercício do compromisso com o direito à informação e com a participação social, encaminhou para o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC um conjunto de questionamentos sobre os Editais de Credenciamento do Programa ABC + Cultura, com o objetivo de compreender melhor sua implementação e compartilhar informações qualificadas com a comunidade cultural da região. Também foi enviado para a Secretaria de Cultura via Conselho Municipal de Políticas Culturais (CMPC) perguntas sobre o edital de credenciamento de artistas para o calendário de eventos e atividades culturais da Prefeitura de Ribeirão Pires. Até o momento nenhum dos tópicos foram respondidos.

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